Ao
mesmo tempo em que utiliza todos os instrumentos legais para tentar
impedir a formação do PSD que o ex-correligionário e prefeito de São
Paulo Gilberto Kassab está organizando, principalmente com dissidentes
do Democratas, o partido procura reforçar seu posicionamento ideológico
para ocupar o nicho eleitoral que o PSD também disputará se for
concretizado. O presidente do DEM, senadorAgripino Maia, diz que o
partido é basicamente de "centro-conservador", evitando o termo
"direita".
Na tentativa de globalizar a linha do partido como
de centro, ele esteve nos últimos dias, em companhia do ex-deputado José
Carlos Aleluia, que preside o instituto de estudos Liberdade e
Cidadania, em duas reuniões no exterior para reforçar os contatos do DEM
com partidos da mesma tendência no mundo.
Uma delas foi a da
Internacional Democrática de Centro (IDC), à qual o DEM aderiu desde
2005. A IDC se contrapõe à Internacional Socialista, que reúne os
partidos de esquerda e social-democratas no mundo e agrupa legendas
representadas por políticos como Jacques Chirac, na França; pelo PSD em
Portugal, hoje de volta ao poder com o primeiro-ministro Pedro Passos
Coelho, e Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia; e pelo Partido
Republicano nos EUA.
Segundo Maia, o Democratas é um partido
que defende teses semelhantes às de José Maria Aznar na Espanha, Sarkozy
na França, Angela Merkel na Alemanha e do Partido Conservador na
Inglaterra. "Não nos confundam com os direitistas do Tea Party", alerta
ele, que pretende estreitar o relacionamento com a nova direção do
Partido Republicano dos Estados Unidos, mais identificado com os
conservadores de centro, como John McCain, do que com sua candidata a
vice Sarah Palin, membro ativo do Tea Party.
O que os
Democratas defendem é que está na hora de uma verdadeira experiência
liberal, com uma reforma do pacto federativo para diminuir o tamanho do
Estado para conseguir também uma redução de impostos.
Aleluia gosta
da definição ideológica contida no Manual da Identidade Partidária e
Ideologia, uma publicação de 2008 do National Institute for
International Affairs (Instituto Nacional de Assuntos Internacionais)
mantido pelo Congresso norte-americano.
O trabalho divide em
três as tendências políticas dos partidos: social-democracia;
centro-direita e liberal. A definição do Democratas fica entre os dois
últimos, mais para a centro-direita, um movimento conservador que
historicamente emergiu entre os que se opuseram à Revolução Francesa,
tendo Edmond Burke, um político inglês, como um de seus principais
líderes.
Nos anos 1970 os temas sociais e econômicos ganharam
destaque na temática conservadora, especialmente as críticas ao
envolvimento do governo no controle da economia, defendendo a tese de
que a degradação social era resultado das políticas de bem-estar social,
que reduziam a responsabilidade individual. Posição semelhante à que o
Democratas tem hoje com relação ao Bolsa Família.
Na reunião
da IDU (União Democrática Internacional, em português) em Washington, o
senador Agripino Maia se encontrou com o novo presidente do Partido
Republicano, Reince Priebus, com quem combinou um trabalho conjunto.
Também
estreitou relações com representantes de partidos conservadores da
Bolívia, Peru e outros países latino-americanos, para se contrapor à
união dos governos de esquerda, base da política externa brasileira para
a região.
No plano interno, o Democratas tenta dificultar a
organização do novo partido PSD, reclamando na Justiça o mandato dos
dissidentes e aprovando na Comissão de Constituição e Justiça do Senado,
em decisão terminativa, que não é permitido a um parlamentar deixar a
legenda pela qual foi eleito apenas para fundar um novo partido.
Entendimento
contrário, acolhido pelo Tribunal Superior Eleitoral, permitiu que
vários deputados e senadores deixassem seus partidos para aderir ao PSD,
mas agora ele está sendo contestado pela decisão do Senado.
O
senador Agripino Maia está convencido de que o governo fará pressão na
Câmara para não aprovar a mudança na lei da fidelidade partidária, para
ajudar o prefeito paulistano Gilberto Kassab.
Mas alega que o
que está acontecendo é a utilização de uma falha na legislação para
quebrar a fidelidade partidária. "Quem quiser sair de um partido para
criar outro, pode fazê-lo, mas terá seu mandato sob risco", adverte
Maia.
Como se vê, o Democratas tenta se reerguer dos seus
próprios escombros para assumir um papel mais afirmativo no espectro
político brasileiro: ser um grande partido de centro-conservador,
próximo especialmente da classe média, trabalhando questões que afetam
seu dia a dia e seus valores, como meio ambiente, altos impostos,
desemprego, apagão aéreo e insegurança pública.
A refundação
programática do partido foi uma tarefa que o senador Agripino Maia
assumiu como principal objetivo quando aceitou presidir o partido em
meio a uma crise política que prenunciava para muitos o fim da legenda.